quinta-feira, 29 de julho de 2010

Ele não via a hora de vê-la sorrir.

Marcos conheceu Bruna no verão de 2009. Tudo acontecia da maneira mais ingênua possível, conversas inocentes por um mero comunicador instantâneo na internet. Algo mais inocente que isso, difícil encontrar. Trocavam músicas, conversavam sobre tudo, mesmo que superficialmente.
"Está calor, imagino aí então", disse Marcos, que vivia em Curitiba. Já Bruna vivia no litoral paulista, Guarujá.
"Quer namorar comigo?", perguntou Marcos, sem deixar que Bruna contestasse seu comentário sobre o tempo. 
"Que? Você está falando sério?"
Ele não tinha nenhuma noção do que havia perguntado e sequer sabia o por que de ter perguntado aquilo, não sabia o que estava fazendo, mas algo o levou a perguntar aquilo. Sem pestanejar, respondeu: "Claro!". Bruna, sem acreditar, se protege: "Você não está brincando com a minha cara, né?". Ele respondeu que não.
Aquilo não era um namoro, mas era. Eles nunca haviam se visto, mas Marcos percebeu que, após fazer a pergunta sem pensar, sentia algo muito forte por ela. 
Tudo ficou mais bonito. Tudo ficou melhor. As conversas fluíam, se conheciam e um era feito para o outro. Dois dias depois, Bruna tinha uma festa para ir, não podia faltar. 
Primeira madrugada em que Marcos passou sem conversar com ela desde que começavam o tal "namoro". 
"Te traí", disse a garota. Ele não podia acreditar. Será real? Seria ela que estava brincando com seu sentimento? "Foi só um beijo, ele é meu amigo, não passa disso". Ele acreditou, mas não deixou barato. Ele também tinha uma festa para ir no outro final de semana e traiu Bruna, porém fez pior, nada contou a ela. Tudo continuou bonito, melhor impossível. Se conheciam mais e mais e tinham a certeza do que sentiam. Apesar da traição, Marcos jamais duvidou do que sentia pela jovem garota.
Chegou o grande momento. Ele se deslocava de Curitiba a São Paulo. Ela se deslocava do Guarujá a São Paulo. A ansiedade e o medo tomavam conta dos dois. 
Depois de esperar horas por seu amigo na rodoviária, Marcos chegou à casa onde ficaria hospedado, sequer conseguia dormir. Naquela tarde conheceria a pessoa que mais amou. Bruna e Marcos ficavam horas no telefone poucas horas antes de se encontrar, revelando suas aflições e a tamanha alegria de finalmente olharem um no olho do outro.
Se encontrariam no Parque Municipal. Marcos foi com seu amigo e amigos de seu amigo. Tudo estava feito. O tempo imprevisível da capital paulista fechou. 
Trovões, raios, cinza.
"Alô, Bruna? Estou na frente do Monumento. Onde te encontro?".
"No portão 8. Vem que vai começar a chover".
Marcos deu voltas e voltas e não encontrava a garota que tanto esperava. O que estaria acontecendo? Passava batido e não encontrava. Ele pediu informações.
"Boa tarde, onde fica o portão 8?"
"Oi gato? Daonde você é?" - disse um garoto um tanto afeminado. 
"Do Paraná, por favor, onde fica o portão 8?", respondeu Marcos, com receio.
"Não vai lá não. Vamos dar uma volta?".
Marcos corria, sendo seguido pelo garoto afeminado. Começava a chover forte. Depois de dar inúmeras voltas, finalmente encontrou o portão onde daria de frente com Bruna. 
"Oi", disse Marcos, retribuindo um beijo no rosto ainda tímido.
"Oi!", respondeu Bruna, acompanhada de alguns amigos, completamente solta e sem esboçar qualquer reação.
Ele queria ir ao shopping, Bruna queria continuar com seus amigos. "Ela não gostou de mim", pensou imediatamente. Depois de muita conversa, ele a convenceu a seguí-lo. No shopping, Marcos encontrou seus amigos e Bruna logo se enturmou, de fato, parecia que já se conheciam há tempos, um conhecia qualquer reação que o outro pudesse esboçar. Riram a toa, conversaram, tomaram Coca sem gás que tanto curtiam. Depois de horas juntos, cada um seguiu seu rumo e foram para suas casas. Ela estava hospedada em sua tia.
No outro dia, logo pela manhã já se encontrariam em uma estação de metrô. Lá se encontraram e passaram a andar pelas ruas de São Paulo, sem rumo. Trocaram seu primeiro beijo. Ela teve a iniciativa, ele se assustou, e teve a certeza de que a amava.
Daí se passaram longos 15 dias. O tempo passou rápido. Ele tinha que voltar à sua cidade para seus estudos, ela idem. Ele fazia faculdade, ela terminaria o ensino médio no próximo ano. Na manhã da despedida, ele já acordou chateado, triste, com um nó na garganta. Ela idem.
Se encontraram no início da noite e pegaram o ônibus em direção à rodoviária. Ele não falava nada. Apenas continha o choro. Ela tentava conversar. Ele apenas segurava a sua mão e curtia seus últimos momentos juntos em completo silêncio. Trocaram cartas, um com o perfume do outro, para não se esquecerem de tudo o que viveram. Tudo parecia um sonho. Conversaram enquanto esperavam o ônibus, que chegou. Se despediram, sentiam a pele na pele pela última vez. Ele disse a ela: "Eu mal vejo a hora de te ver sorrir novamente". Ela sorriu.
Ele mal saiu de São Paulo e Bruna já ligava pra ele. "Está tudo bem? Vou pegar meu ônibus daqui a pouco. Te amo", disse. Sua alegria era tamanha.
Chegaram às suas cidades, e lá voltaram cada um em sua rotina. Março chegou, e com ele, a tempestade. Ela pediu um tempo da relação.
O chão de Marcos desaparecía de seus pés. Ele havia deixado de lado seus amigos para viver um amor platônico. Ela parecia não ligar. "Você não faz meu tipo", dizia Bruna. Ele não entendia. Quinze dias depois, ela queria voltar. Ele, sem hesitar. aceitou. 
Não se passou um dia e novamente Bruna dava fim à história. "Eu não quero mais você. Aliás, por que você não muda esse seu cabelo? Olha sua roupa, olha sua cara. Você não passa de um imbecil, um idiota. Como tive coragem de ficar com alguém do seu nível?". Ingenuamente, ele tentava se moldar à maneira que ela queria. De nada adiantava. Desesperado, Marcos não pensou duas vezes. "Para! Chega! Não estou aguentando. Quer terminar? Termina logo, termina, termina, termina, termina!", dizia Marcos aos prantos, completamente desesperado. "Tá", disse Bruna. Tudo estava terminado.
Ele foi à faculdade com o choro entalado. Entrou na sala de aula, e despejou todas as lágrimas possíveis e impossíveis. Seus amigos tentaram ajudar. De nada adiantava. Ele inventada histórias para que seus amigos o tentassem consolar, porém o consolo era inútil, já que ninguém entendia o verdadeiro motivo de seu desespero. Ele, que estudava fora, passava horas refletindo dentro de um ônibus, esperando a hora de chegar em casa e poder conversar com Bruna. 
"Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa de...", Marcos desligava, completamente descontrolado e sempre aos prantos. Não sabia fazer nada mais do que chorar. Seus amigos consolavam o inconsolável. Ele tentava dar fim a sua vida. Depois de pequenas tentativas, ele não sabia o que fazer.
Queria morrer. Não queria morrer. Apenas queria amar. Ingeriu uma quantidade considerável de remédios para anestesiar-se da intensa dor que sofria. Bruna já não mantinha qualquer tipo de contato. Ele sentia seu mundo desmoronando. Já não havia uma gota de saliva em sua boca, seu coração acelerava, acelerava, acelerava. Ele sabia que ia sobreviver, mas por algumas horas não pensou em nada a não ser querer viver. Apenas queria se sentir vivo. E se sentiu. Apenas algumas horas no hospital acabaram com sua dor física. A depressão o assolava. Parou a faculdade e seguiu sua monótona vida na mais profunda solidão. Tinha seus amigos, porém não encontrava a plenitude.
Terapia. Solução. Ele encontrou. Conversar fez bem para ele. Ele se livrou dessa após meses de luta. Se livrou da tristeza profunda, se livrou da solidão e dos maus pensamentos. Hoje ele segue sua vida normalmente, estuda, sai com os amigos, faz o que lhe dá vontade, algo que Bruna fez sem maiores esforços. A única coisa que ele desaprendeu foi a arte de amar.
Ele não via a hora de vê-la sorrir. Nunca mais teve a oportunidade.

Um comentário:

  1. A única coisa que ele desaprendeu foi a arte de amar. *-* Grande Jornalista !

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